BIBLIOTECAS DAS ESCOLAS DE MONTE GORDO/SANTO ANTÓNIO

29
Jan 10

 

Adeus

 

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.

Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.

Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.

Quando agora digo: meu amor,


já não se passa absolutamente nada.


E no entanto, antes das palavras gastas,


tenho a certeza


de que todas as coisas estremeciam


só de murmurar o teu nome


no silêncio do meu coração.



Não temos já nada para dar.


Dentro de ti


não há nada que me peça água.


O passado é inútil como um trapo.


E já te disse: as palavras estão gastas.



Adeus.

publicado por bibliocentro às 10:37

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